A Black Friday pode ser uma oportunidade para comprar itens necessários por um preço menor. Mas, sem planejamento, a promessa de economia pode se transformar em parcelas que comprometem a renda para 2027, principalmente num período onde chegam as despesas financeiras do primeiro trimestre, como IPVA, compromissos escolares dos filhos e IPTU.
O alerta ganha importância diante do cenário de endividamento das famílias. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), indicam que o percentual de famílias endividadas alcançou entre 81,7% e 82% no segundo semestre, até o mês de setembro. O cartão de crédito aparece em mais de 85% dos casos, enquanto a inadimplência entre os endividados supera 38%, conforme dados recentes apurados pelo portal.
Em entrevista ao MT Econômico, Vitor Brandão, gerente de negócios do Sicredi em Cuiabá, afirma que a primeira decisão não deve ser como pagar, mas se a compra é necessária e compatível com a situação financeira da família. Para ajudar nessa avaliação, ele sugere três perguntas: “Eu posso? Eu preciso? É prioridade?”
A reflexão é especialmente relevante diante das compras parceladas. Uma parcela isolada pode parecer pequena, mas várias prestações acumuladas reduzem o dinheiro disponível para outras despesas. Uma compra de R$ 3 mil dividida em 12 vezes, por exemplo, pode pesar no orçamento ao longo de todo o ano seguinte, sobretudo quando se soma a compromissos já existentes.
Cartão e parcelamento exigem controle
Brandão avalia que o cartão de crédito não é, por si só, o problema. O efeito depende da forma como é usado e de quanto da renda já está comprometida. “A culpa não está naquele pedacinho de plástico; a culpa está no comportamento financeiro que a pessoa tem em relação àquilo”, afirma.
O parcelamento também pode ser útil quando corresponde a uma compra planejada e as prestações cabem no orçamento. O risco, segundo o gerente, é perder de vista o total das obrigações. Na entrevista, ele exemplifica: se uma pessoa recebe R$ 2 mil e destina R$ 1 mil a parcelas, metade da renda já está comprometida, antes mesmo de considerar os gastos essenciais do mês.
Como referência para compras de consumo não essenciais, Brandão sugere limitar as parcelas a cerca de 20% da renda, desde que as despesas essenciais estejam cobertas e a situação financeira permita. O percentual não deve ser tratado como regra universal: o limite adequado depende dos gastos e das responsabilidades de cada pessoa ou família.
“Se botar uma parcela de R$ 100, depois outra de R$ 100 e mais uma de R$ 100, a casa novamente vai ficar cheia de mobília”, compara. A metáfora resume o efeito cumulativo das prestações e compromissos que parecem administráveis individualmente, mas juntos, podem sufocar o orçamento.
Vitor Brandão, gerente de negócios do Sicredi em Cuiabá – Foto: MT Econômico
Planejar antes e pesquisar preços
Uma forma de reduzir a dependência do crédito é começar a se preparar com antecedência. Brandão recomenda guardar regularmente o valor que for possível, mesmo que sejam quantias pequenas. Na entrevista, ele cita o exemplo de quem consegue reservar R$ 100 por mês: ao fim de 12 meses, terá acumulado pouco mais de R$ 1.200, considerando os rendimentos. “Esse valor pode servir como reserva de oportunidade para a compra de algum produto na próxima Black Friday”, complementa.
O gerente do Sicredi também aconselha pesquisar o preço do produto ao longo do tempo e comparar lojas e condições de venda. Assim, o consumidor pode verificar se a oferta representa uma redução real, evitando comprar apenas por causa de um anúncio, cupom ou frete grátis. No comércio eletrônico, esses benefícios também influenciam na decisão de compra. Segundo dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), o comércio eletrônico deve movimentar cerca de R$ 16,6 bilhões em vendas durante a semana da Black Friday. Outros institutos de pesquisa projetam R$ 13,3 bilhões.
A Black Friday não é necessariamente o melhor momento para comprar qualquer produto. “Não existe só a Black Friday como oportunidade. A oportunidade vai acontecer durante o ano inteiro. Um carro, por exemplo, pode ser mais vantajoso comprar em janeiro”, diz Brandão, se referindo a virada de ano onde os veículos sofrem uma depreciação natural de mercado. A recomendação é observar a evolução dos preços e identificar quando o item desejado costuma ficar realmente mais barato.
Organizar o orçamento ajuda a evitar surpresas
Para saber quanto realmente cabe no bolso, é importante registrar receitas e despesas e separar os gastos essenciais das compras de consumo e lazer. A organização pode ser feita em aplicativo, planilha ou papel. “O importante é ter o comportamento de fazer, de registrar, de saber para onde está indo o dinheiro”, afirma o gerente.
Com as despesas mapeadas, fica mais fácil perceber quando as parcelas estão se acumulando e preservar recursos para necessidades e objetivos pessoais e familiares. Brandão também recomenda usar o 13º salário com cautela, priorizando dívidas e compromissos financeiros antes de tratá-lo como dinheiro extra para gastar.
A decisão de compra, portanto, não deve se resumir ao tamanho do desconto ou ao valor da parcela. Como sintetiza o entrevistado, uma compra consciente precisa ser planejada, pesquisada e compatível com o orçamento. A economia só se confirma quando a oferta não compromete o equilíbrio financeiro dos meses seguintes.
Além do planejamento e do acompanhamento das despesas, os associados do Sicredi podem contar com ferramentas que ajudam na organização financeira disponibilizadas no aplicativo Sicredi X, na versão Android e na versão IOS para Iphone Os gerentes da cooperativa também estão preparados para auxiliar na organização do orçamento pessoal e familiar.
O Sicredi ainda desenvolve o programa de educação financeira Cooperação na Ponta do Lápis, voltado a apoiar melhorias no comportamento das pessoas em relação ao dinheiro. Como resume Brandão, uma compra consciente precisa ser planejada, pesquisada e compatível com o orçamento. A economia só se confirma quando a oferta não compromete o equilíbrio financeiro dos meses seguintes.
Preparação para as próximas edições do Black Friday
Encerrando a entrevista ao MT Econômico, Vitor Brandão deixou um recado direto para as pessoas sobre a chegada do décimo terceiro salário. O gerente lembra que o benefício “tá aí, batendo na porta”, e alerta que ele não deve ser visto como uma renda exclusiva para gastar na Black Friday, mas sim como uma oportunidade para quitar suas dívidas.
“Ficar em dia com suas contas é como limpar a casa para começar o ano que vem melhor do que esse ano. Ao se organizar e quitar os débitos pendentes, a pessoa se prepara melhor para a Black Friday de 2027, com mais consciência para se planejar e aproveitar as oportunidades no próximo ano, sem comprometer os gastos essenciais e orçamento”, ressalta.
“As dívidas tiram o sossego de qualquer pessoa, por isso é importante o consumo consciente e a educação financeira”, finaliza o gerente de negócios do Sicredi.
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